sábado, 22 de agosto de 2020

O VICTORIENSE

O VICTORIENSE - Jornal Noticioso e Comercial - Publicação iniciada a 5 de novembro de 186677, não restam comprovantes dos três primeiros anos de sua vivência.

 Existe, nos escaninhos da Biblioteca Pública Estadual, exemplar do nº 46, ano IV, de 20 de novembro de 1869. Impresso em tipografa própria, situada à rua Imperial, 27, apresentou-se em formato 37 x 26, com quatro páginas de três colunas de 14 cíceros. Trazia sob o título uma faixa de composição miúdo, contendo o expediente — “Publica-se uma vez por semana. Assina-se a 3$000 por trimestre (pagos adiantados)” — e informes sobre as audiências do Juiz Municipal.

Não inseriu editorial que fornecesse uma idéia das tendências políticas ou apolíticas do primeiro jornal do município, fundado e redigido por Antão Borges Alves. Abriu a primeira página a seção “Atos Oficiais”, seguindo-se-lhe “Revista Semanal”, constituída de noticiário; folhetim, transcrição, variedades, a continuação dos Estatutos da Sociedade Recreio Teatral Vitoriense, editais e anúncios.

Transferida a pesquisa para Vitória de Santo Antão, foi possível manusear, na biblioteca do Instituto Histórico local, números esparsos e muito raros d’O Victoriense, que vêm sendo, pouco a pouco, consumidos pelo tempo. Assim o nº 24, ano IV, de 25 de junho de 1870,

77Cf. Alfredo de Carvalho, in “Anais da Imprensa Periódica Pernambucana - 1821/1908”. Cometeu um lapso o historiador José Aragão - “A imprensa periódica da Vitória de Santo Antão”, in vol. I da Revista do Instituto Histórico da Vitória de Santo Antão. 1954, ao mencionar, à página 178, esta cidade como tendo sido a sexta, do interior de Pernambuco, a ter jornal. Não, foi a quinta, com O Victoriense. Coube o sexto lugar a Goiana, porque O Oriente, fundado a 8 de julho de 1866, era jornal recifense, só transferido para lá em 1868.

 acompanhando o ritmo do precedente, mas adotando tabela completa de assinaturas, a saber: ano -12$000; semestre - 6$000; trimestre - 3$000.

De algumas edições resta, apenas, a folha correspondente às páginas 3 e 4, como prova de pagamento de matéria do tipo “Solicitadas”. Numa delas vê-se publicado um Edital, tendo à margem o recibo abaixo transcrito, devidamente selado, datado de 18 de maio de 1874 e assinado por Antão Borges Alves: “Recebi do Sr. Dr. Afonso José de Oliveira a quantia de seis mil réis (6$000), da publicação do edital de arrematação do engenho Mocotó”.

  Outros comprovantes d’O Victoriense, com todas as quatro páginas, embora mutiladas: nºs 19, 20 e 32, de 8 e 15 de maio e 10 de agosto de 1875, achando-se transferida a tipografia, junto ao escritório, para o nº 8 da mesma rua Imperial. Constava do sub-título: “Gazeta Noticiosa do Interior de Pernambuco”. No terceiro dos mencionados iniciava-se novo folhetim: “Uma história de sonhos”, com a assinatura Verba Volant. Formato aumentado, páginas com quatro colunas de composição.

Passa-se para os nºs 35 e 45, de 25 de agosto e 10 de novembro de 1877. Mudara o sub-título para: Jornal Noticioso e Comercial, como dantes. Novo endereço: rua Imperial, 43. Não deixou de constar, jamais, o nome do proprietário - Antão Borges Alves.

Voltando à Biblioteca Pública do Estado, lá existem, ainda, os nºs 7 e 8, datados, respectivamente, de 2 e 9 de março de 1878. A par da matéria de rotina, divulgava o folhetim “Solfa em lamiré”, a cargo de Solfaute, especializado em criticar o “pasquim conservador”, ou seja, A idéa Conservadora (outro jornal da cidade), além da colaboração política de Justus e de comentários redacionais, no mesmo sentido. 

Segundo, ainda, Alfredo de Carvalho, no estudo Gênese e progressos da arte tipográfica em Pernambuco”, lª parte do volume dos “Anais”, página 49, O Victoriense, “que, de 1870-76 (ver nota ao pé da página), teve o título mudado para Correio de Santo Antão, publicou-se regularmente até fins de 1878, quando o seu proprietário e principal redator, mudando-se para Glória do Goitá, para lá transportou a mesma imprensa e deu à luz O Goytaense”. 

 Decorridos 61 anos, reapareceu O Victoriense - nº 1, ano LXXII - a 8 de julho de 1939, em formato 48 x 32, com quatro páginas e lisonjeiro aspecto material, tendo a redação e as oficinas instaladas à rua Barão do Rio Branco, 90 e na praça Leão Coroado, 9, respectivamente. Diretor - José Aragão Bezerra Cavalcanti. Tabela de assinaturas: ano - 12$000; semestre - 6$000; mês - 1$000. Preço do exemplar - 0$300.

Aludindo ao retorno do primeiro jornal fundado na cidade, escreveu a redação, no editorial de abertura:

O Victoriense corporificou o ideal de um batalhador; satisfez aos anseios de uma geração sequiosa de luz; foi o primeiro lampejo da inteligência em nossa terra, o marco mais profundo de nossas conquistas, o precursor de nossas vitórias nas lides do pensamento. Por que, pois, em se tratando de imprensa, Vitória, deixar em triste olvido, na poeira dos séculos, o nosso primeiro jornal, filho legítimo da nossa inteligência com o nosso coração?

 Ainda da primeira página constaram notas biográficas, com clichê, do redator-fundador e uma carta do respectivo filho, de igual nome, autorizando o professor José Aragão a fazer ressurgir O Victoriense, cedendo-lhe todos os direitos sobre o respectivo título.

A edição inseriu bastante matéria, a salientar a colaboração de Mário de Farias Castro, Joseph d’Alemmar (pseudônimo de Manuel de Holanda Cavalcanti), Cícero Galvão, Severino Lira, Miss Elania (como se ocultava Maria Isabel de Holanda) e F. Moura; as seções “O que O Vitoriense publicava em 26/06/1875”; “Calendário Cívico”; “Seção Religiosa”; “Vida Administrativa”; “Vida Esportiva” e “Notas Sociais”, e alguns anúncios.

 Prosseguiu a publicação, ora semanal, ora quinzenal, incluida nova seção: a “Coluna Feminina”, a cargo de Mary Ann. Vieram as “Informações Uteis”; mais a divulgação de produções de Pelópidas de Arroxelas Galvão, Crispim Alves, Lamartine de Farias Castro, Francisca Sena, padre José Pessoa, além dos artigos e crônicas do diretor, assinados ou não. Ocorriam, ainda, pelo tempo afora, “Perfis”, em versos, por Iolanda; “Cócegas”, de Vinicius (outro travesti de Manuel Holanda); “Ritmos do Século” e “Jóias Literárias”.

Sem passar das quatro páginas habituais, O Victoriense comemorou, com seu nº 33, de 13 de julho de 1940, o transcurso do primeiro aniversário da nova fase. Segundo o editorial alusivo, houve, no decurso da jornada, “injustiças e compreensões”, que foram situadas, pelo articulista, “dentro das vicissitudes humanas, dos espinhos da missão da imprensa, sublime mas ingrata, e que, no interior, significa renúncia e sacrificio”.

 Interessante seção veio a criar-se depois: “Evocando o passado”. Iase substituindo outras e apareciam diferentes colaboradores, tais como o padre Antonio Alves, Corina de Holanda, Henrique de Holanda, Maria Isabel de Holanda (afora o pseudônimo) e, pelo menos uma vez, Silvino Lopes, enquanto se apresentava, como encarregado das finanças da empresa, Jonas de Morais Andrade.

 Ao atingir 1941, tinha início a “Coluna do Escoteirismo”, a cargo de Alceu Vidal de Melo e, precisamente na edição de 8 de fevereiro, nascia um jornal dentro do jornal: o “Jornal das Escolas”- ano I, nº 1 - ao ensejo do começo do ano letivo, ocupando cerca de meia página, na 2ª, destinado a divulgar o movimento do ensino primário e colaborações infantis; não passou de nove inserções.

Liam-se, nas colunas d’O Victoriense, à época, produções de Manuel de Holanda, Severino Lira e Teixeira de Albuquerque; contos e crônicas; a seção “Sintonizando”; noticiário desportivo e geral e notas ilustradas, sob o título “Panorama da Guerra”. A partir de 27 de junho de 1942, o diretor José Aragão, que tinha assumido o cargo de prefeito do município, admitiu um redator-chefe: Aloísio de Melo Xavier, e um redator-secretário: Júlio Siqueira. Enquanto isto, juntavam-se redação e oficina no prédio nº 15 da rua Barão do Rio Branco. Novos colaboradores: Clidenor Galvão e Albertina Lagos. Por pouco tempo vigorou a seção “Fustigando”, de versos satírico-humorísticos, por Pinóquio. Às vezes, alterava-se o formato; outras vezes parecia a folha impressa em papel de cor.

 Circulou, a 6 de maio de 194378, em edição especial de 14 páginas, comemorativa do centenário da elevação da antiga vila de Santo Antão à categoria de cidade da Vitória, divulgando clichês de administradores federal, estadual e municipal e personalidades de projeção local, noticiário dos festejos do dia e produções originais de elementos de relevo nas letras. Boa parte de reclames comerciais.

No ano em referência, desde 3 de julho, a direção adotou nova tabela de assinaturas, tendo em vista a alta dos preços do material de imprensa, a saber: ano - Cr$ 18,00; semestre - Cr$ 9,00; trimestre - Cr$ 4,50; mês - Cr$ 1,50. Embora normalizado o formato de seis colunas de composição, diminuiram os anúncios, incrementada, assim, a parte editorial, contando com artigos assinados de José Aragão e diferentes produções de J. Esberard Beltrão, Alcides Nicéas, o das “Missangas”; Italenda Mosel, Áurius Júnior e Agamenon Magalliães, este mediante transcrições autorizadas da Folha da Manhã, do Recife. Divulgava, em 1944, atos oficiais da Prefeitura, já ocupada por diferente titular.

 Prosseguindo, o semanário “noticioso e independente” Veio a reduzir o formato a 28 de abril de 1945, ao sistema tabloide — 33 x 24, com quatro colunas de composição — devido à reforma a que ia submeter-se a tipografia. Passou, no entanto, a dar seis e, logo mais, oito páginas, sem mais alterações, salvo a saída da redação, em novembro, do redator Júlio Siqueira.

Ficou suspensa a publicação no ano seguinte, após a edição de 6 de julho. Reapareceu ano LXXX, nº 1 - a 2 de março de 1947, com doze páginas, ainda tablóide, feito quinzenário, usando tipagem nova, nítida impressão, transferidas a redação e oficinas para a rua do Rosário, 36. Assinaturas a Cr$ 24,00 ou Cr$ 12,00 por semestre, figurando, no cabeçalho, o mesmo incansável e eficiente diretor.

 “Não é uma ressurreição. É um retorno”, segundo a nota de abertura.

78 O ano do centenário coincidiu com o da assinatura da lei por força da qual o nome da cidade mudou para Vitória de Santo Antão.

 Tinha suspendido “por motivos imperiosos”. Voltava obedecendo ao mesmo programa, para “servir, nobre e desinteressadamente, à terra e ao povo de que recebeu o nome”.

Adotou as seções “Jornal Operário”; “Em quinze dias”, crônica de Justino d’Ávila “Arte e Literatura”, a cargo do diretor-gerente Henrique de Holanda Cavalcanti; “Perfil”; “Vida Forense”; “Figuras e Fatos da História Pátria”, por Gurjão de Almeida ou José Aragão; “Vida Esportiva”, a cargo de Beraldo Veras; “Pró & Contra”, de Verçosa Filho, que assumiu, no fim do ano, a gerência, por morte do titular acima mencionado; “O Victoriense no lar”; a jamais faltosa “Seção Religiosa”, etc.

 Findou o regime de doze páginas uma vez divulgado o nº 16, de 5 de outubro de 1947, para, no mês subsequente, dia 8, começar numeração nova no formato maior, de cinco colunas de composição. Assim continuou, entrando 1948, quando, em março, voltou a semanário e logo mais estabelecia os seguintes índices de assinatura: ano - Cr$ 30,00; semestre - Cr$ 15,00; trimestre - Cr$ 8,00. Aurino Valois firmava a “Coluna Jurídica” e Verçosa Filho “A Crônica da Semana”.

Não era satisfatória a situação financeira d’O Victoriense, fatalidade inerente a tudo quanto é jornal interiorano. Muito oportuno foi, a respeito, o editorial de sua edição de 24 de julho, sob o título “Cooperação”, tema este focalizado em cores vivas. No caso da imprensa, por exemplo: fala-se da necessidade de um jornal, para tratar “dos problemas locais, movimentar o meio, incentivar a vida social, pugnar pelos interesses das classes e grupos, ventilar os assuntos administrativos, econômicos, educacionais, etc.”, porque “o jornal é o do progresso, os pulmões do povo”, etc., “Mas, quando chega o recebedor das assinaturas, tem de bater mil e uma vezes à porta e subir verdeiro calvário”, para regressar carregado de desculpas. Concluiu o articulista: “E a cooperação, a boa, a boa vontade para o engrandecimento da terra, mãe comum dos vivente, que somos nós? Fica sempre nas débeis cordas da lira”.

 Não era possível ir muito longe mais, O valente periódico terminou seus dias com o nº 10 do ano LXXXIII, que saiu a lume no dia 1 de agosto de 1948, o qual comemorou, como era praxe todos os anos, o dia da vitória, no monte das Tabocas, contra o domínio holandês em Pernambuco79 (Biblioteca Pública do Estado).

https://www.fundaj.gov.br/

 


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